AssociaçãoTeatroFolcloreFutebol

Historia


TEATRO, SUAS ORIGENS E 1º CENTENÁRIO ATÉ AOS NOSSOS DIAS

 

     Os habitantes deste pequeno burgo, personificados em MANUEL FRANCISCO FIGUEIRA e seus descendentes, cultivavam e habitavam nas quintas do Seixo, alargando depois o aglomerado habitacional até às terras férteis do Seixo de Além.
     Neste ninho humano de pássaros sem asas, de pés sem botas, de mãos sem luvas, cercados de pinhais, sem um palmo de asfalto que os levasse a Mira ou a Vagos, ( pois não havia a E. N. 109), restava apenas aos homens, lavrar e cavar as terras, ou esfolar o ombro a dar à vara e caminhar de pé nu sobre a fria geada do bordo do barco moliceiro, desde o cais do Areão até à Torreira quando o vento não era favorável. As mulheres, essas, cavavam também e estonavam aos homens, cuidavam da casa e do rancho de filhos.
     A escola era só para os rapazes; as meninas aprendiam depois a ler e escrever com os irmãos. A escola era em Mira onde os alunos iam a pé. Mais tarde, foi criada uma escola, só para rapazes, em casa emprestada, sendo seu primeiro Mestre, à falta de melhor informação, o Sr. Prof. Ramos, natural de Ílhavo. Foram, penso que seus últimos alunos, Afonso Catarino, Naia Sardo, Miranda Catarino, Manuel e Amândio Oliveira, Manuel Camarinha e outros.
      Este isolamento atrás referido faz nascer na alma deste povo a ideia de o minimizar com uma capela para os congregar à volta do altar, de um cemitério para os mortos sepultar e de um entretenimento, como agora se diz, para as noites de Inverno ajudar a passar.
     Os dados estavam lançados. O que estava na dependência do poder religioso e político teria os seus custos mas demoraria o seu tempo, como se sabe. Resta-nos então o entretenimento que necessitava somente da força, garra, entusiasmo, dinamismo e vontade de todos aqueles que cultivando-se cultivavam, aprendendo ensinavam, divertindo-se divertiam e representando atraíam à frente de um palco quase todos os habitantes do pequeno burgo que é hoje o Seixo de Mira.

    Com falta de sede própria, de actas em arquivo ou de outros documentos escritos, recorremos à tradição oral que nos disse ter aprendido grandes lições com os primeiros actores que viu representar.                                                                
Eis os gloriosos que tornaram possível esta histórica reconstituição:                 
  Mestre Estrela,
  Manuel Vassoura,
  Manuel Corticeiro,
  Manuel Grego,
  Alberto Aveiro,
  João Maria Barbeiro,
  Albano Lourenço
  e … “outros em quem poder não teve a morte.”  

    Os espectáculos, inicialmente, eram compostos por monólogos, poesias, diálogos, canções e um ou outro numero de música dançada.O lugar do espectáculo, por incrível que pareça, era o pátio da casa cedida pelo lavrador em palco improvisado para o efeito, mudando a estrumeira de nome para plateia, onde a assistência se sentava em bancos ou cadeiras que levavam de casa para não ficar de pé. Como o Inverno é bastante pesado e só nesta estação era possível efectuar representações, passou o palco a ser instalado no celeiro da referida casa, ocupando a plateia a parte restante do sótão.


    No limite do século IXX, início do século XX, já se trabalhavam bons textos, peças “ao divino e ao profano”, para agradar a gregos e a troianos.
  “O Natal Divino”,
  “Gaspar O Serralheiro”,
  “Um Erro Judicial”
  “Gabriel E Lusbel Ou Santo António”,
Terão sido as primeiras peças representadas a partir de 1889.
   Vamos perder uns instantes com a última somente por ter sido a obra literária que arrastou mais adeptos em todas as plateias. Trata-se de um texto popular escrito por José Maria Braz da Silva em três actos e quatro quadros, representado pela 1ª vez em 03/04/1854 no Teatro Dª Amélia, em Lisboa pelo 7º centenário de Santo António. Terá chegado ao Seixo pelos fundadores do teatro e representado a seguir a 1890, data em que foi editada a 4ª edição pela Livraria Popular de Francisco Franco. É narrada no texto uma grande luta entre o bem e o mal, personificada aqui por Santo António e Lusbel, respectivamente, com alguns milagres históricos e outros lendários atribuídos ao teólogo de Lisboa, seguida de uma sátira ao abuso do poder político romano sobre a simplicidade das Donzelas da cidade. Uma leitura simples e curta para ler, reler e ver. Para não retirar a ninguém o apetite de ir ao Teatro vamos enumerar somente os actores de que temos dados fiéis e representaram os seguintes papeis:
  Santo António: Albano Lourenço, Isaque Camarinha, Manuel Maria Brioso e Dr. Luís Ventura.
  Anjo Gabriel: Evangelina Aveiro, Madalena Ribeiro, Maria Seabra e Teresa Seabra.
  Lusbel: Alberto Aveiro, António Loureiro e F. Camarinha.

    Para melhor compreendermos esta evolução sócio-cultural sempre enriquecida com experiências comunitárias, basta dizer que “ esta terra rodeada de pinhais”, já em 1866 Contava com 230 fogos, com mais de 1000 habitantes, distribuídos nos lugares de Marco Soalheiro, Cabeças Verdes e Seixo.
 Em 1913 foi sepultado o 1º corpo no novo cemitério, sendo, no ano seguinte decretado o Curato do Seixo com a obrigação de ser garantida residência ao Capelão. 
    Em 1919 é convertido o Curato do Seixo em Freguesia Eclesiástica tendo como primeiro Pároco o Rev. Pre. São Miguel. Nesta altura, tudo leva a crer que o Teatro já ocupava o Clube do Sr. João Aveiro. 
    Em 1929 é construída a residência paroquial, já demolida, onde se começou a ensaiar e representar também, embora por poucos anos, em virtude dos incómodos causados aos habitantes. Nesta mesma data é fundada e criada também no Seixo a Acção Católica, com sede no referido Clube e que veio no ano de 1937 a construir a Casa da Juventude, com capacidade para 200 lugares sentados, um médio palco e dois camarins. Hoje desactivada e substituída pelo Salão Paroquial com capacidade para 500 pessoas e equipado com sub palco, um palco satisfatório em relação ao espaço, pano de boca, teia, camarins, plateia e balcão.
    Tempos houve em que ao longo destes 118 anos chegaram a estar em actividade dois grupos em simultâneo, o que causava alguns distúrbios no que diz respeito ao recrutamento de actores e actrizes numa terra com reduzido número de residentes. Um, era o “Grupo Cénico” o outro o “Grupo da Juventude”.
     O “Grupo Cénico” teve o privilégio de fazer intercâmbio com algumas personagens, figuras de proa, com o Grupo de Mira. Esta troca de actores ter-se-á efectuado nas décadas 30 e 40 do Sec. XX, época em que já existia pedra coberta de saibro até ao Cabeço e asfalto até Mira. O meio de transporte para Mira era “a patarrolo”, com os tamancos ou sapatos amarrados pelos atilhos, pendurados ao ombro para não estafar a sola e a bicicleta, que na época podia, à rebeldia da G. N. R., transportar duas pessoas.
     

     Passados mais de 50 anos do Sec. XX, concretamente no ano de 1954, depois de no ano anterior, em Maio e em Junho, respectivamente, ter sido inaugurado o telefone e a electricidade, eis que é formado um novo grupo de teatro: “ Os Pisadores da Calçada”. Eram quase só estudantes do seminário, cerca de vinte. Do liceu, contavam-se bem pelos dedos de uma só mão e ainda sobravam dedos. O nome do grupo foi indigitado pelo Pre. Camarinha, exactamente porque os estudantes, em férias, raramente cooperavam com os pais nas tarefas agrícolas, passando as férias contando os buracos da estrada e pisando as pedras da calçada. Tiveram pontos altos. Foram “Os Pisadores da Calçada” que brilharam pela 1ª vez no palco da Casa da Juventude em luminotecnica com a construção, embora artesanal, de um reóstato para aumento e diminuição de intensidade luminosa, tendo como base a interrupção do circuito sob uma solução aquosa de cloreto de sódio.
     Até 1954 a iluminação no teatro do seixo foi evoluindo desde a vela de cera, a candeia de petróleo, o candeeiro de vidro, o candeeiro de companhia, a luz de carboneto, a “luz visar”, o recurso às baterias com os projectores de automóveis, a corrente alterna e hoje os projectores fixos e móveis com cores que só por si já são espectáculo.
    O brilho deste grupo esteve sobretudo na representação de algumas peças que pela sua actuação e encenação marcaram a sua actividade e merecem referência:
  “Um Erro Judicial”,
  “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente e
  “O Processo à Gésu”, de Diego Fabri.
     O sentido Comunitário de todos os habitantes do Seixo não escapava também aos grupos organizados. Em 1955, com as receitas dos seus espectáculos de verão, em vez de fazerem uma “panelada”, os estudantes vão a Coimbra e encomendam um conjunto completo de paramentos litúrgicos para serem utilizados na inauguração da Igreja Nova, já programada para o ano seguinte, o que veio a acontecer, depois de ter sido dado aos referidos paramentos toda a explicação simbólica, ainda na Igreja Velha, pelo Pre. Jorge Camejo, à data seminarista, muito conceituado amigo dos estudantes do Seixo.
     O Grupo da Juventude, levou também à cena, dentro da Igreja Nova, em fase de acabamento, a peça “O Expedicionário da Guerra”, para angariação de fundos da mesma igreja.
     No fim da década de 50 leva-se à cena pela 1ª vez o trágico drama “Frei Luís de Sousa” de Almeida Garret, literatura delicada para ser representada por actores cujas habilitações literárias não iam para alem da 3ª e 4ª classe do ensino primário. Dirigia então os actores o Pré. Camarinha e fê-lo por muitos anos, até à cegueira total.
     O” Grupo da Juventude”, coexistiu com “Os Pisadores da Calçada”, que se diluiu em breve no primeiro em virtude de o ensino começar a ser generalizado e ter havido boa congregação entre a caneta e a enxada. Segue-se a” Casa de Pais”, de Francisco Ventura, drama popular de filosofia familiar, explorando o complexo problema da 3ª idade. Foi representada a última vez, no início dos anos 70, por ocasião das festas de São Tomé em Mira, em que uma praça de touros desmontável serviu de plateia com um palco improvisado.

     Os anos sessenta e os cinco da década seguinte, foram os mais negros para o teatro do Seixo. A guerra colonial, o serviço militar obrigatório para coxos, mancos, canários e rolas, o êxodo para a guerra de África, a emigração clandestina para a Europa, reduziram imenso o número de jovens que pretendiam “ir ao palco” nas sessões recreativas promovidas pela Acção Católica na Casa da Juventude ou fazer parte do grupo de teatro para o Natal. Mesmo assim, o amor à cultura, ao teatro, ao anseio de saber, era tanto, que não há memória de que em algum destes anos de crise tenham faltado os filhós para a ceia, o porco no curral ou o teatro pelo Natal.
     É exactamente nesta época de desgaste que o grupo é bafejado por um sopro de sorte. Eis que surge um filho desta terra, ali para os lados da Quinta da Cigana, nas Cabeças Verdes, com dezoito anos apenas, cultura livresca, a do Seminário de Coimbra, vejam lá, a escrever peças de teatro para o grupo. Trata-se, já se vê, do Dr. Gabriel Frada. Ninguém levará a mal que mencione o espólio que nos deixou, algum, manuscrito até:
Volume de título, “Vamos ao Palco”, com as peças:  “Embaixador da Morte”; “Prova Suprema”; “Uma Ideia Extravagante”;“Justiça ou Vingança”; “Exploração do Homem”; “Ensaio Geral”.                      Em separado: “Amor à Prova” e a sua obra-prima, “A Trapeira”.

     Nos anos 70 é iniciado o Salão Paroquial, com mão-de-obra não especializada cedida graciosamente pelos “Companheiros Construtores”, que bem cedo estava apto, embora sem soalho ainda, a receber uma sessão de hipnotismo, a favor da construção, pelo Pe. Armando, Pároco de Cacia e com pseudónimo de “Marcos do Vale”. No fim da década é inaugurado então o Salão Paroquial com a representação da obra-prima do teatro português, “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garret e “Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente, o introdutor do Teatro em Portugal. Segue-se depois “Missa Leiga” de Xico de Assis, “O Mar” de Miguel Torga, “João, o Corta Mar”, “A Trapeira” e outras mais, até que, chegados a 1989 e segundo a tradição, embora oral, havia já cem anos de teatro e era necessário proceder à comemoração do 1º CENTENÁRIO do TEATRO no SEIXO.

     O 1º CENTENÁRIO foi promovido pela A. C. R., mais propriamente pela Direcção da Secção de Teatro, que se fez alargar aos amantes do teatro ainda no reino dos vivos e que muito ajudaram a construir a história e a programação do grande acontecimento. Esta comissão alargada, deliberou que um centenário é de facto importante, devendo ter como objectivo principal, dar a saber a toda a comunidade que O TEATRO no Seixo, foi o veículo que mais promoveu culturalmente toda a nossa gente, durante estes 100 anos.
     Do programa fez parte uma sessão solene de abertura no dia dezassete de Junho de 1989, em que estiveram presentes as autoridades nacionais, regionais, municipais, todos os actores residentes longe da freguesia que aceitaram o convite e toda a população que se juntou até lotar a capacidade do Salão Paroquial.
     A abertura da Sessão Solene esteve a cargo do Dr. Gabriel Frada, na qualidade de autor, actor e filho do Seixo, que historiou o teatro desde o seu início, como já o havia feito num dos seus livros.
     Em seguida, foi prestada homenagem aos primeiros actores, já falecidos e representados por seus familiares, com a entrega de um medalhão comemorativo do Centenário. Foram eles: Manuel Estrela (pai e filho), Manuel Grego, Alberto Aveiro, António Loureiro, o Praina, Afonso Catarino, João Maria Barbeiro, M. Corticeiro (Pinho) e outros.
     O pano desceu para um curto intervalo e, quando subiu, já estava em cena o mais belo quadro de “Santo António”, em que “Lusbel” tentava o Santo e “Gabriel “ o protegia. Foi assim que deliberou a comissão: Apresentar nesta 1ª sessão, quadros das melhores peças representadas no nosso palco. Segue-se um novo quadro, mas de uma outra peça: “Um erro Judicial”, em que um tribunal constituído por três juízes erra e o advogado de defesa acaba por pegar num volume do processo, já louco, dizendo para os jurados: …”estes papeis rasgo-os e atiro--os a essas faces sem vergonha”.
      O “GIL”, o tal, que fazia autos para El-Rei, também foi lembrado com um estrato de “A Barca do Inferno” em que “Belzebu” é bombardeado pelo “Parvo” com um chorrilho de ofensas, desde beiçudo … a cornudo, que nem o quer embarcar. E lá vai o “Parvo”, pedir ingresso ao “Anjo” da Glória, que lhe responde: …” Tu entrarás se quiseres, que por malícia não erraste, mas fica entretanto por aí, até ver se vem alguém, merecedor de tal bem, que mereça entrar aqui”.
     Como a Associação Cultural e Recreativa é constituída pelas secções de Teatro, Folclore e Futebol, é agora a vez do Folclore participar também, activamente na sessão com duas coreografias do seu belo reportório, “O Vira do Seixo” e “Trigo Amarelo, Malhos no Ar”. 
     O Futebol, como não podia deixar de ser, entra no palco também, com onze elementos equipados e maravilha-nos com alguns minutos de preparação física.
     E para que ninguém dos presentes ficasse triste, foi representada, em texto integral, a comédia que mais terá dado lugar à expansão da alegria no nosso palco, “Um namoro engraçado”, em que, Manuel Maria “Brioso”, num bom “Travesti” à sua típica maneira, pisou pela última vez os bastidores no palco. Um amante do Teatro Amador de Lisboa (Carnide), Bento Martins, nosso convidado especial, perguntava-me ao ouvido: “quem é a velha que vocês aqui têm com um triângulo de visualização a gesticular como uma perfeita actriz profissional”? Essa velha, é um homem, respondi.O pano desceu e a festa continuou no ” Café Lareira” com um bom convívio entre todos os participantes.
     Os quatro fins-de-semana seguintes ouviram bater as pancadas de Molière e viram subir o pano para serem representadas quatro grandes peças: “Terra Firme” de Miguel Torga, levada a cabo pelo grupo anfitrião e encenada para o Centenário; “A Forja”, trabalhada pelo grupo da Abrunheira; de novo a “Terra Firme” apresentada pelo grupo de Cadima e “Santo António” ou “Gabriel E Lusbel” de J. M. Braz da Silva, com a qual, o “Teatro de Carnide”, Lisboa, dirigido por Bento Martins, nos brindou no encerramento deste nosso 1º CENTENÀRIO do TEATRO NO SEIXO.

     De então para cá, o teatro não morreu, ele está bem vivo na alma daqueles que gostam de saber o que é a plateia e o palco, o proscénio e a ribalta, os bastidores e a teia, os retábulos e os cenários, a luz e o som, uma cena aberta e fechada. São estes mesmo, que já levaram à cena “Os Infiéis Defuntos”, “Um Chapéu de Palha”, “O Santo e a Porca”, e muito mais...
     Muito resumidamente, aqui fica, o que foi, é, e bem espero, será, o Teatro no Seixo.Muito haveria a dizer, desde os dramas e comédias que foram representadas, os personagens que interpretaram os papeis, as tristezas e também muitas alegrias que houve entre eles, até aos namoricos que aí nasceram e casamentos que se consumaram. Ainda se desfolhavam muitas páginas para os vindouros poderem recordar como os antepassados ocupavam os tempos livres divertindo-se, mas cultivando-se.
     Aqui fica pois a porta aberta para dar continuidade a alguma ideia que não ficou bem clara ou acrescentar algo importante que não me tenha ocorrido à memória durante a descrição. Sou um amante do Teatro. Comecei por recitar poesias, fazer comédias e dramas, dar ponto e contra regra, caracterizar e encenar. Só não segurei o palco às costas porque isso fez, e muito bem, o “Giro” no Teatro do “José Maria da Miguela”.


         Fernando Camarinha.

Historia
ACRSeixo 2007 powered by vbworks.net